segunda-feira, outubro 10, 2005

CARÁCTER DEFICIENTE

O carácter do actual líder do PSD pode-se identificar facilmente através de três ou quatro aspectos.
Na noite passada, embora o seu partido tivesse reconquistado algumas das maiores Câmaras do país em coligação com o CDS-PP, não o mencionou, nem tão-pouco agradeceu o espírito de lealdade e de colaboração do seu parceiro em cerca de 20% das Câmaras.
Retirou arbitrariamente o apoio do partido a uns, como Valentim e Isaltino, num assomo de grande e imaculada virtude política, enquanto manteve o apoio a outros, como Isabel Damasceno e Alberto João Jardim, sem lógica e sem a congruente coragem política e pessoal.
Não esclareceu até hoje as acusações que lhe atribuem, concretamente, ter um passado, no partido, de pressões sistemáticas para colocação dos amigos em 'tachos'.
Mantém-se à frente do partido, na sequência das mais graves omissões (agora uma vez mais) e acusações ao trabalho e à perspicácia política do anterior líder do PSD, demonstrando um comportamento medíocre, amplamente censurável, comportamento verdadeiramente execrável de que Carmona Rodrigues se soube distanciar - e muito bem - não ousando subscrevê-lo.
O candidato do PSD eleito em Lisboa soube dar, no seu discurso de vitória, a Santana Lopes o que lhe pertence e não se coibiu, mesmo, de referir que, sem ele, não estaria, por certo, ali.
Nestas eleições foi, em diversas situações, reforçada a emergência de políticos que têm vindo a demonstrar ser de uma estirpe que nos devolve, em boa parte, a esperança.
Não é, de todo, o caso de Luís Marques Mendes!

sábado, outubro 08, 2005

referências / LUDWIG von BERTALANFFY

descaminhos / ASSIM NÃO, ZÉZINHA!

Dado o estado a que chegou a direita em Portugal, a candidatura autárquica de Maria José Nogueira Pinto, mormente depois da sua exposição em defesa de uma nova ideologia para a direita logo após a queda do último governo, não podia deixar de ser um acto que transmitisse já 'um cheirinho' da necessária regeneração da direita portuguesa.
Não foi esse o posicionamento, não obstante ser inelutável a leitura desta candidatura e do seu resultado como sendo o da direita (até pela escondimento eleitoral pessoal do líder do CDS-PP) e, assim, o que se pode fazer é tentar perceber o pensamento regenerador da candidata, através do seu discurso eleitoral autárquico.
Extrai-se então um pensamento declaradamente defensor do 'sim', mas pragmaticamente ávido de 'nãos', retrógrado, na expectativa de que os votantes venham atrás das ideias serôdias da envelhecida direita, em vez de esta direita fazer o seu 'aggiornamento' (sendo certo que já não pode perder nenhuma oportunidade para o fazer) em relação à sociedade portuguesa e sua inevitável evolução.
A referência, agressiva, de rejeição aos anunciados projectos de arquitectos de reconhecimento internacional inquestionável para Lisboa, bandeiras de outra candidatura, é o climax de uma maneira de estar na política (acobertando-se sistematicamente com razões financeiras...) que indicia tão-só para a direita a continuação da sua perda acelerada de influência política.
Tendo descolado definitivamente dos níveis de audiência pública de movimentos políticos capazes de defenderem a esperança das camadas populacionais mais jovens, como é o caso do BE, o CDS-PP - agarrado a temas como, paradigmaticamente, é a cega rejeição de maior condescendência na interrupção voluntária da gravidez -, nem acantonado numas eleições autárquicas consegue apoio de algum modo expressivo para as suas provectas ideias políticas.
Com mais este triste exemplo, com os ideologicamente frouxos actores que têm desfilado nos últimos anos e os consequentes erros cometidos, o que resta à direita portuguesa é, sem dúvida, mais do foro do renascimento do que propriamente da regeneração.

sexta-feira, outubro 07, 2005

marco / ARQUITECTURA PAISAGISTA EM PORTUGAL


"Eu creio que em primeira aproximação pode afirmar-se que a Arquitectura Paisagista está relacionada com todas as disciplinas espaciais que tratam do meio ambiente e dos seres vivos, como o arquitecto está para as disciplinas de engenharias das diversas especialidades que concorrem para a edificação. (...)
Dizem-nos que a nossa profissão é antes de mais artística na concepção apoiada em técnicas e ciências para o estudo e execução dos projectos. Acrescento que uma das características proprias da nossa arte é que concebe a quatro dimensões - as três do espaço - e o tempo. O arquitecto paisagista deve estar preparado para entender bem todos os factores ambientais macro e micro climáticos, solos, etc...e conhecer as possibilidades de vida e adaptação das plantas a estes factores com as modificações que se podem introduzir. Tem que conhecer profundamente os materiais com que trabalha sobretudo as plantas com quem necessita de ter convivido... conhecê-las pessoalmente! (...)
A tudo isto se acrescentam as qualidades artísticas de proporções e composição para que o conjunto resulte harmonioso desde o princípio e nas diferentes partes do seu desenvolvimento. (...)
Concluo com o mais importante: de par com a formação artística é indispensável conhecer-se também as bases científicas sem a qual a nossa actividade profissional resulta impossível."

Prof. Francisco Caldeira Cabral
Barcelona, Collegio de Arquitectura
Baleares, 11 de Março de 1978

quinta-feira, outubro 06, 2005

descaminhos / ENSIMESMAMENTO FATAL

O autismo do governo e da presidência da república está a tornar-se trágico.
Então não é que um diz que a conflitualidade em Portugal, afinal, não é assim tão grande como isso, comparando com França, enquanto a outra vem com uma inversão de ónus da prova para tentar salvar, no limite, um consulado já nomeado como o mais devastador do regime democrático?
Este Sócrates tem os militares em revolta, os juízes em greve, as polícias sem acção, e ainda vem a público fazer de todos parvos, avançando com comparações com países estabilizados, sem qualquer hipótese de medição com os gravíssimos e históricos problemas estruturais com que o Estado português verdadeiramente se confronta devido à falta de habilidade do seu governo!
Aquele Sampaio, que tem dez anos de completa falta de jeito no curriculum presidencial, de choraminguices pelo país fora, vem agora, numa típica e própria atitude de cobardia política, meter os galões à força, radicalizando o discurso, num último, vão e inglório esforço para se quedar bem na fotografia!
Estamos num ensimesmamento fatal.

magister dixit / DEUS


Deus

Às vezes sou o Deus que trago em mim
E então eu sou o Deus e o crente e a prece
E a imagem de marfim
Em que esse deus se esquece.

Às vezes não sou mais do que um ateu
Desse deus meu que eu sou quando me exalto.
Olho em mim todo um céu
E é um mero oco céu alto.

referências / LUC FERRY

En ce qui concerne les questions touchant à l'écologie, il me semble que nous vivons un renversement des perspectives depuis le XVIIIe siècle. Forçant un peu le trait, je dirai que l'idéologie des philosophes des Lumières était caractérisée par un optimisme de la science et un pessimisme de la nature. Cela apparaît de manière flagrante lorsque l'on considère les réactions des grands esprits au tremblement de terre de Lisbonne, un séisme qui dévasta la ville et fit vingt mille morts. Les philosophes pensent à cette époque la nature comme méchante mais espèrent maîtriser celle-ci grâce à la science.
Il est à peine exagéré de dire que nous nous trouvons actuellement dans une perspective inverse, face à un optimisme de la nature et un pessimisme de la science. Nous aimons tous la nature (surtout lorsque nous partons en vacances) alors que la science inquiète. Nous pensons que les risques majeurs proviennent désormais des retombées de la science et des techniques.
Les mythes de la dépossession (où une créature - l'apprenti sorcier, Prométhée, Frankenstein -, échappe à son créateur et menace de dévaster le monde) illustrent ce pessimisme de la science. Pour certains, la recherche scientifique et technologique constitue une créature humaine, qui nous échappe et menace de détruire la terre. Le débat sur les OGM tourne bien autour de cette question. Le retour de ces mythes pour décrire l'activité scientifique et les effets de la technique est très intéressant à analyser. Avec ce terme de "dépossession", nous touchons au cœur de ce qui relie aujourd'hui l'essentiel de l'écologie contemporaine avec la problématique de la mondialisation. En effet, nous pouvons également dire des marchés financiers qu'ils échappent à notre contrôle. Nous sommes ainsi renvoyés à cette problématique commune de l'écologie contemporaine à l'égard de la mondialisation. Je pense qu'il existe là un lien qui mérite d'être creusé.
En abordant avec des élèves les questions relatives au développement durable (une expression très floue, qui suscite une multiplicité d'interprétations), il convient de réfléchir au type d'écologie que nous voulons enseigner à nos élèves. Un sociologue allemand, Ulrich Beck présente dans La Société du risque, un ouvrage paru en 1986 après la catastrophe de Tchernobyl, une réflexion remarquable sur les mutations de l'écologie contemporaine. Il oppose deux moments de la modernité depuis le XVIIIe siècle : une première modernité va du XVIIIe au XIXe siècle ; une seconde est caractéristique du XXe siècle, notamment de l'après-guerre. Ulrich Beck pense que la seconde modernité est terme à terme la contradiction de la première et en même temps, elle en est directement son résultat.
L'héritage des Lumières
La première modernité, héritage des Lumières, est caractérisée d'abord par un discours scientifique arrogant, dogmatique, dominateur, qui prend presque la place du discours religieux en termes d'argument d'autorité, par une science qui n'est pas auto-réflexive et qui n'hésite pas à se montrer tyrannique à l'égard de la nature. Je pense par exemple à un passage écrit par Claude Bernard sur la vivisection : pour ce savant, le résultat des sciences est infiniment plus important que les objets que la science est amenée à martyriser.
L'émergence de la démocratie, liée au cadre de l'État-nation et à la naissance de la science moderne, constitue une deuxième caractéristique de cette première modernité : rien n'est plus démocratique qu'une vérité scientifique. Dans le cadre de l'État-nation, les particuliers peuvent se reconnaître dans une classe politique censée incarner l'intérêt général.
Enfin, la problématique de cette première modernité dont parle Ulrich Beck est la dynamique de l'égalité, celle de la production et du partage des richesses, ce que disent Marx et Tocqueville. Malgré cette pensée de l'égalité, nous sommes encore dans une conception des rôles sociaux et sexuels très figés. Les différences de sexe et de classe sont encore perçues comme intangibles : les penseurs ont tendance à naturaliser ces différences et à les considérer comme indépassables.
Le second moment de la modernité : la société du risque
La seconde modernité décrite par Ulrich Beck touche directement à la conception de l'écologie que nous devrions, me semble-t-il, défendre aujourd'hui. Ce moment contredit point par point la première, en même temps qu'elle en résulte.
Premièrement, la science n'est plus tout à fait sûre d'elle-même et elle commence à se remettre en question. La bioéthique et les propos des scientifiques qui s'interrogent sur les retombées de leur travail en laboratoire fournissent des exemples de cette auto-réflexivité.
Deuxièmement, nous sortons du cadre de l'État-nation, notamment dans le domaine de la bioéthique et de l'écologie. Interdire le diagnostic préimplantatoire n'a aucun sens, si celui-ci est autorisé à Londres et à Bruxelles. Nous avons donc l'impératif de sortir des frontières et nous ne sommes plus sûrs que le cadre idéal de l'action politique soit celui de la nation. En effet, les termes de mondialisation et de démocratie d'opinion reviennent sans cesse dans le débat.
Troisièmement, il apparaît que, dans cette seconde modernité, la problématique fondamentale reste celle de l'égalité mais que celle-ci tend progressivement à être supplantée par la problématique du risque. Nous voyons se multiplier les peurs nouvelles. Hans Jonas, autre penseur de l'écologie en Allemagne pensait ainsi qu'il existe une heuristique de la peur, qui devient une passion politique fondamentale.
Enfin, nous voyons que les rôles sexuels et sociaux tendent à s'effacer progressivement. Même si beaucoup reste à faire, la parité est largement devenue une réalité. Souvenez-vous des réticences des Français envers la politique de discrimination positive aux États-Unis, il y a quinze ans. La France est aujourd'hui le pays le plus avancé du monde en matière de quotas.
À l'heure de la mondialisation, nous pouvons distinguer au moins deux écologies.
Il subsiste encore une écologie romantique, tournée vers la nostalgie d'un paradis perdu, d'un retour en arrière. Ce courant tend néanmoins à s'estomper, au profit d'une écologie auto-réflexive, qui s'ancre davantage dans cette deuxième modernité, qui devient de plus en plus scientifique et qui utilise les armes de la science pour convaincre. Je pense que c'est cette écologie qui doit être enseignée aux élèves.
L'essentiel de l'écologie présentée dans des pays très avancés dans ce domaine (Canada, Allemagne) est scientifique et réflexive, non nostalgique et fondamentaliste. Nous sommes confrontés ici à une évolution considérable, que je considère comme extrêmement positive. J'ai en effet envie de défendre et de promouvoir dans le cadre de l'enseignement une écologie humaniste et auto-réflexive.
Au-delà de ces remarques simples et schématiques, vous trouverez l'esquisse d'un projet auquel j'aimerais que nous participions tous, qui est celui de la construction d'une écologie à visage humain, qui se trouve au niveau des défis de la deuxième modernité.

terça-feira, outubro 04, 2005

SAUDADES POR ANTECIPAÇÃO


Será que este primeiro ministro que o povo nos deu terá a coragem e o discernimento político para fazer como fez, no rescaldo das últimas eleições autárquicas, António Guterres?
Será que tem a verticalidade democrática necessária e suficiente para ler, na votação do próximo domingo, o cartão vermelho que a esmagadora maioria dos portugueses lhe vai mostrar?
E, como corolário, ir-se embora, desandar, deixar a tarefa de governar segundo a constituição, isto é, para fazer crescer o nível de vida dos portugueses, em vez de o diminuir, deixar essa tarefa para aqueles que têm condições para liderar, de facto, o país?
Ou o que nos restará será termos já, por antecipação, saudades de Guterres e da sua atitude, verdadeiramente democrática, de deixar, como deixou, o governo por ordem expressa do povo?

sexta-feira, setembro 30, 2005

índice / SETEMBRO 2005

Último dia de Setembro, data própria para apresentação do índice dos posts publicados durante este mês.

- textos de fundo: O Interesse Nacional Sempre;
Rúbricas Novas
-rúbrica referências, com os títulos: Aristóteles, Christopher Lasch, Johannes Althusius, Serge Latouche, Johann Gottfried von Herder, Martin Heidegger;
-rúbrica dito pelo próprio, com o título: Jorge Sampaio Falhou Rotundamente;
Rúbricas já existentes
-rúbrica princípios, com os seguintes títulos: Religião, O Papel das Ideias;
-rúbrica fancy, com os seguintes títulos: Queremos Mais, O Supra-Sumo da Barbatana, O Porquê Dos Maus Sinais, Glamour;
-rúbrica magister dixit, com os seguintes títulos: O Que O Faz Mover?, Merda!;
-rúbrica offside, com o seguinte título: Coveiros;
-rúbrica socos, com o seguinte título: P'ra Trás;
-rúbrica aisthesis, com os seguintes títulos: Apelo, Sensual Nudes, Amor em Monsanto, La Louve, Allegro;
-rúbrica hope, com o seguinte título: Ending Extreme Poverty;
-rúbrica trapalhadas, com os seguintes títulos: Estagnação versus Crescimento, Medicamentos ao Preço da Chuva;
-rúbrica caminhos, com os seguintes títulos: IV República, For a Living Planet;
-rúbrica parti pris, com os seguintes títulos: Salazar a Vomitar a Pátria, Um País por Achar neste País;
-rúbrica descaminhos, com os seguintes títulos: O Sétimo País Mais Endividado do Mundo, Um Governo a Duas Velocidades;
-rúbrica produtividade, com o seguinte título: Reforma do Governo.

fancy / GLAMOUR

sexta-feira, setembro 23, 2005

magister dixit / MERDA!

Merda!
A Europa tem sede que se crie, tem fome de Futuro!
A Europa quer grandes Poetas, quer grandes Estadistas, quer grandes Generais!
Quer o político que construa conscientemente os destinos inconscientes do seu Povo!
Quer o poeta que busque a Imortalidade ardentemente, e não se importe com a fama, que é para as actrizes e para os produtos farmacêuticos!
Quer o general que combata pelo Triunfo Construtivo, não pela vitória em que apenas se derrotam os outros!
A Europa quer muito desses políticos, muitos desses Poetas, muitos desses Generais!
A Europa quer a Grande Ideia que esteja por dentro destes Homens Fortes - a ideia que seja o Nome da sua riqueza anónima!
A Europa quer a Inteligência Nova que seja a Forma da sua Matéria caótica!
Quer a Vontade Nova que faça um Edifício com as pedras-ao-acaso do que é hoje a Vida!
Quer a Sensibilidade Nova que reúna de dentro os egoísmos dos lacaios da Hora!
A Europa quer Donos! O Mundo quer a Europa!
A Europa está farta de não existir ainda! Está farta de ser apenas o arrabalde de si-própria! A Era das Máquinas procura, tacteando, a vinda da Grande Humanidade!
A Europa anseia, ao menos, por Teóricos de O-que-será, por Cantores-Videntes do seu Futuro!
Dai Homeros à Era das Máquinas, ó Destinos científicos! Dai Miltons à Época das Cousas Eléctricas, ó Deuses interiores à Matéria!
Dai-nos Possuidores de si-próprios, Fortes, Completos, Harmónicos, Subtis!
A Europa quer passar de designação geográfica a pessoa civilizada!
O que aí está a apodrecer a Vida, quando muito é estrume para o Futuro!
O que aí está não pode durar, porque não é nada!
Eu, da Raça dos Navegadores, afirmo que não pode durar!
Eu, da Raça dos Descobridores, desprezo o que seja menos que descobrir um Novo Mundo!
Quem há na Europa que ao menos suspeite de que lado fica o Novo Mundo agora a descobrir? Quem sabe estar em um Sagres qualquer?
Eu, ao menos, sou uma grande Ânsia do tamanho exacto do Possível!
Eu, ao menos, sou da estatura da Ambição Imperfeita, mas da Ambição para Senhores, não para escravos!
Ergo-me ante o sol que desce, e a sombra do meu Desprezo anoitece em vós!
Eu, ao menos, sou bastante para indicar o Caminho!
Vou indicar o Caminho!
(Álvaro de campos, in 'Ultimatum', Lisboa, Ática, 1980, pág. 120)

quinta-feira, setembro 22, 2005

descaminhos / UM GOVERNO A DUAS VELOCIDADES



No sector da energia, o governo congratulou-se com a decisão do Tribunal Europeu sobre a concentração entre a electricidade e o gás, em Portugal, proposta pelo anterior governo e contestada pelo PS, então na oposição.
Não era esse o modelo perfilhado pelo PS por uma razão: não garantia a concorrência e os prejudicados seriam os consumidores.
Muito bem, nada a opor: é uma posição legítima, defensável e com lógica.
Entretanto, o governo faz o quê no sector ferroviário? Atropela descaradamente o mesmíssimo princípio da concorrência que brande a propósito do sector energético!
Num diploma assinado por Guterres foi criada a REFER, para gerir a infraestrutura ferroviária, um indiscutível monopólio natural pelas suas características específicas.
Por isso, a REFER tem responsabilidades particulares, quanto à independência do seu comportamento em tudo o que respeite à igualdade de oportunidades que deve disponibilizar a todos os utilizadores da infraestrutura ferroviária, efectivos ou potenciais.
Ora o que tem estado a fazer o governo no processo Bombardier na Amadora? O governo cilindrou todo e qualquer dever de garantia da concorrência, ao colocar a REFER a adquirir instalações à Bombardier para, acto contínuo, as entregar à CP!
Mas mais, o regulador do sector, o INTF, criado também pelo PS, assiste impávido e sereno a esta obscena violação dos princípios da concorrência. E, no entanto, o INTF, tem especiais deveres de promoção da concorrência, como consta do art. 10.º dos seus estatutos.
O sector ferroviário é um dos sectores que mais recursos do erário público sorve, recursos que, melhor geridos, poderiam contribuir fortemente para ser evitada a retirada de benefícios às pessoas que este governo tem vindo a praticar.
Gerir melhor esses recursos exige a introdução de concorrência no sector ferroviário, sem demoras. Introduzir a concorrência não é, contudo, colocá-la na lei e, depois, fazer de conta, não a praticando nos actos de gestão de quem tem deveres nesse campo.
O caso da Bombardier, não sendo a mais significativa omissão de concorrência no sector, é exemplar. Se a REFER compra as instalações da Bombardier, não as pode colocar na CP, como foi referido publicamente, sem cumprir as regras da concorrência a que está estritamente obrigada, disponibilizando-as à CP ou a quem concorrer com a CP em concurso público transparente.
Este governo, ao contrariar princípios tão essenciais a uma boa gestão e ao incumprir legislação criada pelo seu próprio partido no passado recente, inviabilizando todo e qualquer resquício de dinamismo económico no sector, que outra coisa está a fazer - acumulando casos flagrantes como este -, senão conduzir o país à miséria?

quarta-feira, setembro 21, 2005

marco / RESSURGIMENTO DO GRAND PALAIS

Paris dá o exemplo, com o fim da profunda restauração do Grand Palais e a sua recondução às funções para que foi concebido, há mais de um século.
As cidades precisam de se reconhecer no passado que constitui a sua história.
Por ocasião da pré-campanha para as eleições autárquicas em Lisboa, faz sentido perceber-se quais as propostas dos candidatos quanto à recuperação de tanto património degradado.
A demolição do velho cinema Monumental, no Saldanha, no tempo do Eng. Nuno Abecassis, marcou uma geração, pela frieza demonstrada por uma tal autorização.
O que pensará disso a herdeira do testemunho de Nuno Abecassis, Maria José Nogueira Pinto, candidata nestas eleições?
O Grand Palais reabriu há poucos dias para as Jornadas do Património e já está a ser disputado pela Alta Costura para os desfiles do próximo Outono.

trapalhadas / MEDICAMENTOS AO PREÇO DA CHUVA


Mais uma refinada trapalhada deste governo, que ganhou as eleições a criticar as trapalhadas do anterior.
Esta é a dos preços dos medicamentos que, no quadro da seca extrema em que o país vive, estão afinal ... ao preço da chuva.
Trocas e baldrocas, genéricos que sim mas que talvez, sobem os preços, mas que ainda se vendem pouco, portanto que não tem efeito, farmacêuticos que manipulam, no entanto conseguem do governo prazo de venda a preços antigos sem limite, enfim que valentíssima trapalhice, à antiga!
Se não fosse o trabalho de casa, feito a sério, pelo governo anterior na Educação para o início do ano lectivo decorrer por uma vez bem - cuja boleia este governo apanhou sem pestanejar, através de uma ministra que, pois..., não conhece os limites da soberania nacional-, o que é que restava fora da monumental série de trapalhadas da governação, a bater todos os limites de decência conhecidos?

produtividade / REFORMA DO GOVERNO




A não criação de riqueza é a fonte principal dos problemas que o país sente, uma vez que tem como efeito a chamada, pelo actual Governo, de todos os sectores da população a participarem com o sacrifício dos seus direitos na alegada solução das dificuldades financeiras.
A não criação de riqueza acontece fundamentalmente por Portugal apresentar um muito baixo nível de produtividade, por um lado, e não registar uma taxa de crescimento da produtividade em consonância com esse nível baixo, por outro.
Mais grave ainda do que tudo isso, não existe um programa com objectivos definidos para se atingir a taxa de crescimento da produtividade necessária.
É consensual entre os portugueses que um dos factores essenciais da baixa produtividade nacional consiste na burocracia, patente em muito serviços públicos e, por arrasto, até em muitos serviços privados que seguem o modelo estatal.
A burocracia excessiva de que Portugal sofre começa no próprio governo e não se resolve com estudos, resolve-se com a atribuição de poder e de independência a um orgão dotado de personalidades com méritos amplamente reconhecidos na sociedade, na matéria.
Não parece que a Comissão Bilhim possa trazer algo de significativo neste campo decisivo para a superação da crise nacional, por uma razão evidente: o autismo do primeiro ministro.
Estão prometidos resultados dos estudos para meados de 2006! E estão prometidas decisões para depois, como se o país pudesse esperar e como se não houvesse personalidades que sabem perfeitamente o que é necessário fazer!
As clientelas partidárias, que o primeiro ministro já demonstrou, com todo o despudor, não ter conseguido domar no seu PS (se é que alguma vez teve essa intenção) jamais deixarão que a racionalização que se impõe, desde logo ao nível do governo, avance.
Não é com este governo, nem com esta maioria parlamentar que o problema se resolve.

domingo, setembro 18, 2005

fancy / O PORQUÊ DOS MAUS SINAIS

Maria de Fátima Bonifácio (MFB) faz parte dos intelectuais portugueses activos, publicando regularmente as suas análises na comunicação social, como é o caso do artigo de hoje no Publico, intitulado Maus Sinais.
Como historiadora, estará provavelmente mais apta a explicar o passado.
O artigo explicita, no entanto, uma observação da actualidade nacional, consensual, referindo MFB que "um considerável leque de funcionários do Estado, incluindo titulares de orgãos de soberania (os juízes), estão pois em guerra aberta com o governo".
O artigo expende também a sua opinião: "Desapareceu, em Portugal, toda a espécie de respeito pelo quer que seja".
Como já tinha referido, a respeito de Vasco Pulido Valente, MFB observa, analisa, opina, mas não apresenta soluções.
Aliás, vale dizer, nesta mesma edição do Público, Vasco Pulido Valente procede a uma análise de 'Como se chegou aqui ?', notável.
E a questão é esta: MFB, como intelectual, não tem responsabilidades na situação em que o país está e no caminho deveras crítico que está a percorrer?
Em O Papel das Ideias, abordei este tema, mencionando que "os intelectuais, sendo os agentes da produção e da divulgação das ideias e respectivas teorias, não podem realizar o vital papel das ideias nos conturbados tempos que vivemos, se não cortarem completamente com as suas posições de defesa do sistema vigente".
MFB, no essencial, acha que os funcionários públicos, juízes, forças de segurança e militares incluídos, não deviam comportar-se assim.
Acha que "O Bloco e o PCP, que contam medrar e florescer no ambiente de anarquia que define a 'democracia avançada', aprovam, com típica irresponsabilidade, este estado de coisas".
E faz uma ligeira crítica ao governo, não o vendo "revestido da autoridade necessária para impor aos portugueses os sacrifícios indispensáveis à recuperação do país".
Ora, assim, MFB mais não faz do que legitimar o sistema vigente, como têm feito outros intelectuais que, ainda que criticando, alinham num processo de integração da contestação que em nada beneficia o regime.
O fracasso da revolução política de 1974 vai-se concretizando como resultado da ausência de um quadro de valores substitutivo do anterior.
Um quadro capaz de gerar uma nova função para Portugal no mundo, em que o papel histórico dos portugueses não seja pura e simplesmente apagado.
É precisamente aqui que os intelectuais portugueses têm falhado estrondosamente!
E não se lhes pode assacar responsabilidades?
Na História, a força das ideias é claramente mais persuasiva, e sempre foi mais consequente, nas longas durações, do que a das políticas, e MFB tem de saber isso pelo seu trabalho de historiadora.
Antes de tudo o mais, o que falta hoje - e desde há muito tempo já -, a Portugal, são ideias. O resto vem por acréscimo.

sábado, setembro 17, 2005

aesthesis / ALLEGRO

Sente como vibra
Doidamente em nós
Um vento feroz
Estorcendo a fibra

Dos caules informes
E as plantas carnívoras
De bôcas enormes
Lutam contra as víboras


E os rios soturnos
Ouve como vazam
A água corrompida

E as sombras se casam
Nos raios noturnos
Da lua perdida...

(Oxford, 1939, in 'Livro de Sonetos', Rio de Janeiro, Sabiá, 1967, pág. 48)

sexta-feira, setembro 16, 2005

descaminhos / O SÉTIMO PAÍS MAIS ENDIVIDADO DO MUNDO


De acordo com a notícia de hoje do Jornal de Negócios, referindo o 'Global Financial Stability Report, do IMF, "Portugal foi em 2004 o sétimo país que mais se endividou em todo o Mundo em termos absolutos, um resultado especialmente preocupante se se levar em conta a pequena dimensão do país".
Os sinais de crise profunda, histórica, em que Portugal tem vindo a mergulhar, não páram de se evidenciar.
As razões da crise não são superficiais. Como tem vindo a ser apontado aqui, mais do que medidas pontuais e de reformas sem nexo, o país precisa de um conceito estratégico de defesa nacional (CEDN) que incida sobre a criação de riqueza.
Mas este novo CEDN, embora tenha de reintroduzir no seu conteúdo a estratégia económica de Portugal (que Paulo Portas, enquando ministro de estado e da defesa, inexplicavelmente, apesar de avisado, anulou na revisão do CEDN que levou a cabo), tem de obedecer a uma ideia prioritária: a da função que queremos que Portugal desempenhe no mundo.

dito pelo próprio / JORGE SAMPAIO FALHOU ROTUNDAMENTE

Miguel Sousa Tavares, já anteriormente referido aqui no re-Descobrimentos, publica hoje, no Público, um artigo intitulado 'Partido e Estado', onde diz:
"Foi aqui, exactamente, na capacidade de estabelecer um clima saudável na vida pública e política do país, que Jorge Sampaio falhou rotundamente, assistindo e, de facto, presidindo a dez anos de degradação sistemática da vida democrática em Portugal" (sub. n/)

fancy / O SUPRA-SUMO DA BARBATANA


CAPITAL
Casas, carros, casas, casos.
Capital
Encarcerada.

Colos, calos, cuspo, caspa.
Cantos, castas. Calvos, cabras.
Casos, casos...carros, casas...
Capital
Acumulado.

E capuzes. E capotas.
E que pêsames! Que passos!
Em que pensas? Como passas?
Capitães. E capatazes.
E cartazes. Que patadas!
E que chaves! Cofres, caixas...
Capital
Acautelado.

Cascos, coxas, queixos, cornos.
Os capazes. Os capados.
Corpos. Corvos. Copos, copos.
Capital,
Oh! Capital,
Capital
Decapitada!

(David Mourão-Ferreira, in 'ESTA É A DITOSA PÁTRIA MINHA AMADA', Lisboa, 1977, Terra Livre, pág. 71)